Bem-vindo ao Acervo da Irmandade dos Clérigos

Neste espaço, dedicado ao Acervo da Irmandade dos Clérigos, vai ser regularmente apresentado algumas das peça existentes nas coleções e suas informações complementares.

Vai entrar numa viagem por um espólio do século XIII ao século XXI, através de coleções de torêutica medieval, ourivesaria, escultura, pintura, têxtil, mobiliário.

Cruz de Via Sacra

Designação: Cruz

Proveniência: Portugal

Cronologia: Século XVII

Materiais e técnicas: Granito policromado

N.º de inv.º: ICP 7

Descrição:

Localizada na zona onde viria a ser construida a escadaria da Igreja dos Clérigos, a cruz da via sacra já ali estaria no terceiro quartel do século XVII, de acordo com o testemunho do mercador de retrós Manuel Marques, que com cerca de 80 anos em 1723, se lembrava desde pequeno de ver este padrão.

A esta cruz foi dado o nome de Cruz da Cassoa, por nela ter sido colocada em tempos, uma cruz de madeira para devoção da população. O nome "Cassoa" que causa alguma estranheza, pode estar associado a uma família de apelido Cação, residente no Porto, que terá mandado fazer a cruz como manifestação de piedade e devoção. Quem a mandou fazer terá sido um membro feminino da familia, o que originou a designação "Cassoa".

Por volta de 1750, a cruz da via sacra, que ficava muito perto da escadaria da igreja e prejudicava o esplendor da fachada barroca, foi removida e colocada mais abaixo, junto da muralha. Aquando da construção das casas no desmantelado Adro dos Enforcados, a cruz foi colocada no interior da Igreja dos Clérigos. Antes, porém, foi levada para a oficina de um pintor, talvez de Domingos Teixeira, para nela ser pintada a imagem de Cristo Crucificado.

No dia 13 de setembro de 1790, o Senhor da Pedra Fria foi colocado no interior da igreja tendo a Irmandade dos Clérigos decido criar um altar onde se pudesse dizer missa. O altar ficou situado junto ao arco que separa a galilé da nave da igreja, do lado do evangelho. No século XIX, o Senhor da Pedra Fria ou simplesmente Senhor da Pedra tinha devoção significativa junto da população, existindo até uma festividade anual em sua honra. Porém o altar só durou algumas décadas, pois por decisão do Padre José Luís Leite, o mesmo foi desmantelado. Em 1837, o Senhor da Pedra foi transferido para a Capela de Nossa Senhora da Lapa onde ficou até 2013.

Neste ano, dado o estado de conservação em que a Capela da Lapa se encontrava foi levado a cabo um projeto de recuperação que contou com uma equipa de vinte técnicos, que interviu durante três meses, atuando em diversas áreas: reabilitação, azulejaria, talha dourada, pintura sobre estuque e escultura policromada, permitindo a sua total recuperação. Esta empreitada obrigou a nova mudança de lugar do Senhor da Pedra, desta feita, foi colocado no átrio da antiga enfermaria dos Clérigos, permanecendo até hoje.

Arcaz

"DURANTE A INTERVENÇÃO DE RESTAURO DO ARCAZ, MÓVEL DE SACRISTIA DESTINADO A GUARDAR PARAMENTOS E ALFAIAS LITÚRGICAS, ENCONTROU-SE UMA TÁBUA CURIOSA"

Designação: Tábua

Proveniência: Brasil

Cronologia: Século XVIII

Materiais e técnicas: Madeira de castanho

Inscrição: Marcações feitas a tinta e a fogo

N.º de inv.º: ICP 264

Descrição:

A reconstrução da sacristia terminou em novembro de 1770. Na visita espiritual à igreja, concluiu-se que estava tudo bem, à exceção do arcaz, que não dignificava o espaço.

A obra com o novo arcaz acarretava uma despesa que a Irmandade não podia pagar, devido aos gastos que tinha tido com o retábulo-mor. Neste contexto, surge o Irmão Bento Rodrigues Guimarães que empresta o dinheiro necessário para a obra do novo arcaz e sem cobrar juros. A oferta do irmão Bento foi aceite em reunião da Irmandade, ficando esta de pagar o empréstimo quando lhe fosse conveniente.

E assim foi possível a compra de "6 caixões que foram de ter açucar" para a execução do arcaz, sob o desenho do arquiteto Manuel dos Santos Porto. A obra, dirigida pelo mestre carpinteiro Tomás Pereira da Costa, foi assim descrita num documento da época: "um caixão de pau preto com ferragem amarela, quase do comprimento de toda a sacristia, com quatro ordens de gavetões e na altura três em cada ordem".

Contudo, este arcaz não corresponderá ao arcaz que hoje existe, pois em 1783 a Irmandade dos Clérigos aprova a execução de novos "caixões". Apesar do aproveitamento das madeiras existentes no anterior arcaz, mais do que uma remodelação, terá sido executada uma obra nova, desta feita sob o risco do arquiteto portuense Damião Pereira de Azevedo.

Estilisticamente enquadrado no período neoclássico, mede cercade 8,90m de comprimento, 1,25m de altura e 1,20m de profundidade, tem doze gavetas (mais seis falsas nas ilhargas) e encontra-se assente sobre o pavimento de granito. Possui a frente, ilhargas e fasquio do tampo em madeira de de jacarandá, com decoração entalhada. As ferragens exteriores – puxadores, respetivos espelhos e espelhos de fechadura – serão executadas numa liga de cobre, latão ou bronze, revestidas a dourado, trabalho executado por Alexandre Luís Teixeira.

 As ferragens, em forma de elipse com orla perlada encimada por laçaria, têm ao centro, em relevo, uma grinalda de flores bem ao gosto francês e de inspiração neoclássica.

E se por aqui ficassemos, a história do arcaz seria semelhante a tantas outras histórias de peçasque fizeramo acervo do Museu da Irmandade dos Clérigos. Mas não, a história do arcaz não fica por aqui, pois a madeira utilizada na sua execução tem outra história.

O açúcar importado ao Brasil vinha em caixotes de madeira. A construção das caixas de transporte era de extrema importância na indústria açucareira, pois uma caixa mal construída causaria graves prejuízos ao produtor. As caixas teriam de ser "enxutas e bem aparelhadas, a saber barreadas por dentro nas juntas com barro, e folhas secas de bananeiro sobre o barro". (...) "logo se prega, usando de verruma, pregos e martelo e do gastalho ou gato, para apertar alguma tábua rachada.(...) Leva uma caixa oitenta e seis pregos.

As caixas eram marcadas com tinta ou ferro em brasa, e eram identificadas com o peso, o local de produção e o nome do encomendador. A madeira era depois reutilizada (1).

A Irmandade dos Clérigos adquiriu assim madeira de castanho, de boa qualidade e barata, comprando inicialmente seis "caixões" e mais tarde nove. Em dezembro de 1772 comprou mais um caixote, para que pudessem ser colocadas as tábuas nos fundos das gavetas.

A tábua que damos a conhecer é proveniente desses caixotes de açucar. E esta, em particular, foi utilizada na ilharga da extrema-esquerda do arcaz, e retirada durante os trabalhos de restauro executados em 2014.

 

 

1VALENTE, Adelina - Problemas de Identificação de Madeiras do Mobiliário Setecentista Português: análise botânica e designação comuns. In Matrizes da Investigação em Artes decorativas II. Direcção de Gonçalo Vasconcelos e Sousa. Porto: Universidade Católica Editora. P. 116.

Cruz de Limoges

"A PEÇA MAIS ANTIGA PRESENTE NA COLEÇÃO DA IRMANDADE"

Designação: Cruz de Aplicação

Cronologia: 1201-1215

Autor: Desconhecido

Materiais e técnica: Liga de cobre com esmaltes em champlevé e vestígios de douramento

Dimensões: 21,2 x 11,6 x 0,3 cm

Local de produção: Oficinas de Limoges (França)

Incorporação: Doação - "Coleção António Miranda"

Descrição:

Crucifixo que apresenta catorze orifícios destinados à fixação da placa no suporte (possivelmente uma arqueta ou uma cruz de madeira) e quatro orifícios para receber os cravos da figura de Cristo, infelizmente ausente. Como é usual nestas placas, a cruz apresenta braços com remates retilíneos e ostenta, ao centro, na interceção dos quatro braços, um generoso campo circular. O Anverso apresenta a silhueta do corpo de Cristo, o que permite verificar que este apresentava longo perizóneo que, à maneira românica, descia abaixo dos joelhos, e os dois pés cravados separadamente em supedâneo. Com exceção do espaço ocupado pela escultura de Cristo toda a restante superfície do Anverso é preenchida com esmalte azul (duas tonalidades), branco, verde e vermelho, em motivos que compreendem círculos, losangos e quadrifólios. Sobre a figura de Cristo, em cartela a esmalte azul, foi grafado o titulus, onde se lê a inscrição: XPS (Christus). A Sua cabeça apresentava-se glorificada por nimbo cruciforme, com cruz esmaltada a vermelho. O supedâneo, onde os dois pés foram cravados separadamente, recebeu também esmalte vermelho. Na base da cruz foi representado um monte com pedras, referência ao Gólgota. A restante superfície da cruz foi densamente decorada com motivos em esmalte. O Reverso é liso e desprovido de qualquer ornamentação esmaltada, uma vez que se destinava a ficar oculto.

Esta placa foi produzida nas conhecidas oficinas de Limoges e tem muitos paralelos que a permitem classificar dentro do primeiro quartel do Século XIII. Registemos as placas do Museu Municipal de l’Evêché, em Limoges (Inv. 274, 304, 305, 335), do Tesouro da Catedral de Nancy, do Museu de Belas-Artes de Chalons-en-Champagne (inv. 861.1.382 e 384), do Museu Paul Dupuy de Toulouse (inv. 18117) ou da Igreja de Saint-Pierre-ès-Liens (Le Donzeil, França) (GAUTHIER 1972; ARMINJON et alii 1995). Conhecem-se modelos mais arcaicos - como a placa do Musée de La Sénatorerie de Guéret (inv. AO-19), atribuída a c. 1190 – e exemplos mais tardios – como a placa do Metropolitan Museum of Art, de New York (inv. 17.190.786), dos meados do Século XIII.

O paralelo mais estreito que conhecemos é, no entanto, a Cruz de Terrazas (Museo del Retablo, Iglesia de San Esteban, Burgos), que apresenta enormes afinidades com o nosso exemplar, até mesmo na base pétrea representando o Gólgota (LÁZARO LOPEZ 1993, pp. 114-115; Exp. O Românico…, 1998, pp. 161-163). O mesmo tipo de embasamento pétreo encontra-se também na Cruz de Sanzoles (Palácio Episcopal de Zamora) (Exp. O Românico…, 1998, pp. 158-160).

Em Portugal existem pelo menos mais duas peças semelhantes: uma placa procedente da Col. Barros e Sá, hoje integrada no Museu Nacional de Arte Antiga (Inv. 493 Met) (MNAA, 2003, p. 77) e uma outra pertencente à Col. Correia de Campos (CAMPOS s/d, Est. 3).

BARROCA, Mário Jorge – Torêutica Medieval. In Christus. Porto: Irmandade dos Clérigos, 2016. P.

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