Bem-vindo ao Acervo da Irmandade dos Clérigos

Neste espaço, dedicado ao Acervo da Irmandade dos Clérigos, vai ser regularmente apresentado algumas das peça existentes nas coleções e suas informações complementares.

Vai entrar numa viagem por um espólio do século XIII ao século XXI, através de coleções de torêutica medieval, ourivesaria, escultura, pintura, têxtil, mobiliário.

Cruz de Limoges

"A PEÇA MAIS ANTIGA PRESENTE NA COLEÇÃO DA IRMANDADE"

Designação: Cruz de Aplicação

Cronologia: 1201-1215

Autor: Desconhecido

Materiais e técnica: Liga de cobre com esmaltes em champlevé e vestígios de douramento

Dimensões: 21,2 x 11,6 x 0,3 cm

Local de produção: Oficinas de Limoges (França)

Incorporação: Doação - "Coleção António Miranda"

Descrição:

Crucifixo que apresenta catorze orifícios destinados à fixação da placa no suporte (possivelmente uma arqueta ou uma cruz de madeira) e quatro orifícios para receber os cravos da figura de Cristo, infelizmente ausente. Como é usual nestas placas, a cruz apresenta braços com remates retilíneos e ostenta, ao centro, na interceção dos quatro braços, um generoso campo circular. O Anverso apresenta a silhueta do corpo de Cristo, o que permite verificar que este apresentava longo perizóneo que, à maneira românica, descia abaixo dos joelhos, e os dois pés cravados separadamente em supedâneo. Com exceção do espaço ocupado pela escultura de Cristo toda a restante superfície do Anverso é preenchida com esmalte azul (duas tonalidades), branco, verde e vermelho, em motivos que compreendem círculos, losangos e quadrifólios. Sobre a figura de Cristo, em cartela a esmalte azul, foi grafado o titulus, onde se lê a inscrição: XPS (Christus). A Sua cabeça apresentava-se glorificada por nimbo cruciforme, com cruz esmaltada a vermelho. O supedâneo, onde os dois pés foram cravados separadamente, recebeu também esmalte vermelho. Na base da cruz foi representado um monte com pedras, referência ao Gólgota. A restante superfície da cruz foi densamente decorada com motivos em esmalte. O Reverso é liso e desprovido de qualquer ornamentação esmaltada, uma vez que se destinava a ficar oculto.

Esta placa foi produzida nas conhecidas oficinas de Limoges e tem muitos paralelos que a permitem classificar dentro do primeiro quartel do Século XIII. Registemos as placas do Museu Municipal de l’Evêché, em Limoges (Inv. 274, 304, 305, 335), do Tesouro da Catedral de Nancy, do Museu de Belas-Artes de Chalons-en-Champagne (inv. 861.1.382 e 384), do Museu Paul Dupuy de Toulouse (inv. 18117) ou da Igreja de Saint-Pierre-ès-Liens (Le Donzeil, França) (GAUTHIER 1972; ARMINJON et alii 1995). Conhecem-se modelos mais arcaicos - como a placa do Musée de La Sénatorerie de Guéret (inv. AO-19), atribuída a c. 1190 – e exemplos mais tardios – como a placa do Metropolitan Museum of Art, de New York (inv. 17.190.786), dos meados do Século XIII.

O paralelo mais estreito que conhecemos é, no entanto, a Cruz de Terrazas (Museo del Retablo, Iglesia de San Esteban, Burgos), que apresenta enormes afinidades com o nosso exemplar, até mesmo na base pétrea representando o Gólgota (LÁZARO LOPEZ 1993, pp. 114-115; Exp. O Românico…, 1998, pp. 161-163). O mesmo tipo de embasamento pétreo encontra-se também na Cruz de Sanzoles (Palácio Episcopal de Zamora) (Exp. O Românico…, 1998, pp. 158-160).

Em Portugal existem pelo menos mais duas peças semelhantes: uma placa procedente da Col. Barros e Sá, hoje integrada no Museu Nacional de Arte Antiga (Inv. 493 Met) (MNAA, 2003, p. 77) e uma outra pertencente à Col. Correia de Campos (CAMPOS s/d, Est. 3).

BARROCA, Mário Jorge – Torêutica Medieval. In Christus. Porto: Irmandade dos Clérigos, 2016. P.

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