IN CLERIGUS

Corria o ano de 1707, quando, da união de três associações religiosas portuenses, nasce a Irmandade dos Clérigos, aprovada por Breve Apostólico do Papa Clemente XI, datado de 1710. No âmago desta Irmandade encontra-se a dedicação ao culto e à devoção de Deus e de sua Mãe, tendo com essa finalidade sido erigida uma nova Igreja, a qual hoje conhecemos como Igreja dos Clérigos. No decurso dos séculos, a Irmandade dos Clérigos foi consagrando entre as suas paredes um «tesouro» que sempre teve um único fim - servir a Deus. A Igreja, a Sacristia, a Torre e o edifício administrativo da Irmandade foram sendo, paulatinamente, enriquecidos quer com alfaias litúrgicas essenciais ao culto, quer com retábulos, cadeirais, imagens de Cristo, de sua Mãe e de vários Santos, em diversos materiais, concebidos ao sabor da devoção dos homens e das oferendas que este foram fazendo.

Este espaço, chamado CLÉRIGUS, nome do último livro editado, é o repositório desse sagrado «tesouro», acumulado ao longo de séculos de existência da Irmandade dos Clérigos e que vamos desvendando.

Virgem com o Menino

A importância e a valorização dada à arte que, ao longo dos séculos, foi demonstrada pela Irmandade dos Clérigos, ficam bem patentes com a simples constatação da qualidade e do elevado número de obras de arte que hoje fazem parte do valioso património artístico da Irmandade e que foram cuidadosamente reunidas e preservadas evidenciando o elevado grau de cultura, erudição e sensibilidade artística dos seus mais destacados responsáveis.

Designação: Virgem com o Menino

Local de produção: Itália

Autor: Desconhecido

Cronologia: Século XVII (?)

Matéria: Óleo sobre madeira

Dimensões (cm): alt. 58; larg. 45,5

Nº Inventário: ICP 209

Pintura italianizante e com laivos de inspiração em Leonardo da Vinci, esta representação da Virgem com o Menino remete para as Virgens da Ternura, da pintura bizantina, nas quais a Mãe e seu Filho trocam gestos de carinho. Neste caso, o Menino Jesus, completamente despido, amparado por sua Mãe, acaricia com a mão esquerda o queixo da Virgem, ao mesmo tempo que volta a cabeça e o olhar em direção ao observador. A Virgem Maria, por sua vez, ostentando túnica azul e manto vermelho, ampara o seu Filho e olha também para o observador. As proporções anatómicas apresentam-se corretas e o trabalho técnico do claro-escuro, que configura os volumes, está perfeitamente conseguido e segue o princípio do sfumato desenvolvido por Leonardo da Vinci. Tanto a Virgem Maria como o Menino Jesus olham para o observador parecendo convidá-lo a penetrar no mistério de acolher o Filho, como sugere a Senhora, ou de aceitar a Virgem como sua Mãe, como indica Jesus.

Foi oferecida pelo Padre João Tinoco Vieira, tesoureiro da Irmandade dos Clérigos em 1733 e presidente da mesma em 1735.

O quadro intitulado “Virgem com o Menino” poder ser  contemplada no altar de Nossa Senhora das Dores, na Igreja.

Casimiro, Luís - In Clerigus.

Irmandade dos Clérigos, 2019

 

* Luís Casimiro é doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto e dedica-se à investigação em Iconografia, e é o autor do texto sobre a coleção de pintura no catálogo Clerigus.

 

Clérigos como caixa acústica

Este monumento barroco é, em si mesmo, um poderoso instrumento musical.

O espaço arquitetónico barroco contemplou na sua génese a experiência musical, na medida em que dadas as suas características, permite conter as melodias, e por outro, aumentar a sua projeção.

Tendo em conta o papel preponderante da música nas cerimónias religiosas, houve uma preocupação evidente na conceção de edifícios religiosos. Criaram-se edifícios como verdadeiros instrumentos musicais, tendo sido o trabalho teórico-prático dos arquitetos barrocos, lidado com preocupações como o comportamento acústico das edificações e a propagação e inteligibilidade da voz. O espaço torna-se inevitavelmente no elo direto de ligação entre duas artes: música e arquitetura. Os edifícios que aparentavam ser mais simples, convertem-se em verdadeiros instrumentos musicais. Um magnífico exemplo disto é a Igreja dos Clérigos.

A verdadeira alma deste instrumento reside na igreja, não só pelos dois órgãos de tubos de confeção ibérica, simetricamente posicionados, mas também pela sua geometria. Com a sua nave de planta oval, coroada com uma abóbada praticamente semielipsoidal, os Clérigos apresentam-se como uma extraordinária caixa acústica, constituindo o primeiro ensaio deste modelo de configuração geométrica em território nacional.

De acordo com alguns investigadores, uma planta com as características da Igreja dos Clérigos influencia o comportamento das ondas sonoras, em especial, à sua difusão.

Não se sabe se o arquiteto Nicolau Nasoni teria este conhecimento, mas não existem dúvidas quanto ao modo triunfal como a arquitetura foi capaz de se elevar a um formidável instrumento musical.

Xavier, João Pedro - Clérigos como caixa acústica. In Clerigus.

Irmandade dos Clérigos, 2019