IN CLERIGUS

Corria o ano de 1707, quando, da união de três associações religiosas portuenses, nasce a Irmandade dos Clérigos, aprovada por Breve Apostólico do Papa Clemente XI, datado de 1710. No âmago desta Irmandade encontra-se a dedicação ao culto e à devoção de Deus e de sua Mãe, tendo com essa finalidade sido erigida uma nova Igreja, a qual hoje conhecemos como Igreja dos Clérigos. No decurso dos séculos, a Irmandade dos Clérigos foi consagrando entre as suas paredes um «tesouro» que sempre teve um único fim - servir a Deus. A Igreja, a Sacristia, a Torre e o edifício administrativo da Irmandade foram sendo, paulatinamente, enriquecidos quer com alfaias litúrgicas essenciais ao culto, quer com retábulos, cadeirais, imagens de Cristo, de sua Mãe e de vários Santos, em diversos materiais, concebidos ao sabor da devoção dos homens e das oferendas que este foram fazendo.

Este espaço, chamado CLÉRIGUS, nome do último livro editado, é o repositório desse sagrado «tesouro», acumulado ao longo de séculos de existência da Irmandade dos Clérigos e que vamos desvendando.

Cadeiral da Capela-mor

A coleção de mobiliário, tal como o restante acervo da Igreja e Irmandade dos Clérigos, carateriza-se, na sua grande maioria, pela unidade da sua origem, refletindo, por essa razão, a história e o percurso da instituição portuense, bem como a sua ação espiritual, assistencial e administrativa.

Designação: Cadeiras do coro

Local de produção: Portugal, Porto

Autor: Damião Pereira de Azevedo (? - Porto, 1818) (risco); José Fernandes Neves (cadeiras do coro); Patrício José Pereira (douramento)

Cronologia: 1775-1779

Materiais e técnica: Madeiras de jacarandá (?) entalhado e de castanho (?) entalhado e dourado

Dimensões (cm):

Andar superior: alt. 344; comp. 558; prof. 47. Andar inferior: alt. 138; comp. 443; prof. 65 – lado do evangelho

Andar superior: alt. 342; comp. 559; prof. 49. Andar inferior: alt. 138; comp. 442; prof. 66 – lado da epístola

Descrição: O atual cadeiral, ou cadeiras do coro, foi executado mais tarde, ao longo da segunda metade da década de 1770. É composto por dois andares de 16 cadeiras (9 na fila de trás e 7 na da frente), que ocupam cada um dos lados da capela-mor num total de 32 assentos. O vasto e precioso arquivo da Irmandade permite-nos acompanhar as várias etapas da sua construção e o tempo de execução, o custo e o nome dos vários mestres e oficiais envolvidos na empreitada.

Assim, a execução da obra das cadeiras do coro foi ajustada em 1775 com o mestre ensamblador portuense José Fernandes Neves, o que indica que data desse ano o desenho do móvel, ou é, até, um pouco anterior. Em 1778 o cadeiral estava, pois, concluído, tendo sido pago aos oficiais do mestre José Fernandes Neves o transporte das cadeiras e das varandas para a igreja. As quatro «grades para as janelas da capela-mor» foram igualmente executadas pelo ensamblador, ou seja, as balaustradas dos vãos que ladeiam os órgãos (LOPES; QUEIRÓS, 2013: 227), cujo ornato e recorte central evocam, aliás, o elemento decorativo central do espaldar das cadeiras, conferindo ao espaço uma desejável uniformidade. Instalado o cadeiral na capela-mor da igreja, a 24 de abril desse ano a obra foi aprovada, juntamente com as da porta principal e dos órgãos, obras que a Mesa considerou, aliás, «de bom gosto». Em 1779 as cadeiras e as varandas da capela-mor foram douradas pelo pintor Patrício José Pereira e pelos seus oficiais, e no final do ano foram envernizadas, tarefa que coube, mais uma vez, ao mesmo pintor, que em janeiro de 1780 cobrava pela empreitada e pelo material usado.

Quanto à sua conceção, o móvel foi desenhado pelo mestre entalhador e arquiteto Damião Pereira de Azevedo, filho do célebre entalhador portuense Francisco Pereira Campanhã, que, nesta época, realizara já várias obras de talha para a Irmandade, algumas em parceria com o filho Damião.

Quando em 1968 o historiador de arte norte-americano dedicou uma vasta e inédita análise aos cadeirais portugueses, no âmbito dos seus estudos dedicados à arte portuguesa, em que a talha e o mobiliário tinham lugar de destaque, o cadeiral dos Clérigos mereceu a sua atenção, salientando-o como um dos melhores exemplares do rococó (SMITH, 1968: 66, 97, fig. 89 A). Desconhecendo então a data da execução do móvel, o historiador situou-o na série de cadeirais filiados no imponente cadeiral da Sé do Porto, designadamente pela sua estrutura e pela combinação do pau-preto com ornatos de talha dourados, mas distinguindo estes últimos pela sua leveza e delicadeza, caraterísticas da talha portuense do terceiro quartel do século XVIII, de que o entalhador e riscador Francisco Pereira Campanhã foi um dos grandes intérpretes.

De facto, observam-se nas cadeiras e nos espaldares delicados concheados e no remate coroas com palmas cruzadas, motivo que surge já no cadeiral da sé do Porto e nos cadeirais joaninos das catedrais de Viseu e da Guarda e do mosteiro do Lorvão, mas também evocativo das coroas com palmas e ramos do próprio retábulo de mármore da capela-mor. Nas cadeiras, destacam-se os mascarões das misericórdias dos assentos, de que saem delicados ramos de flores em substituição da tradicional folhagem, e os notáveis rostos esculpidos nos painéis que separam os assentos.

Celina Bastos – Mobiliário. In Clerigus. Porto: Irmandade dos Clérigos, 2019.

Virgem com o Menino

A importância e a valorização dada à arte que, ao longo dos séculos, foi demonstrada pela Irmandade dos Clérigos, ficam bem patentes com a simples constatação da qualidade e do elevado número de obras de arte que hoje fazem parte do valioso património artístico da Irmandade e que foram cuidadosamente reunidas e preservadas evidenciando o elevado grau de cultura, erudição e sensibilidade artística dos seus mais destacados responsáveis.

Designação: Virgem com o Menino

Local de produção: Itália

Autor: Desconhecido

Cronologia: Século XVII (?)

Matéria: Óleo sobre madeira

Dimensões (cm): alt. 58; larg. 45,5

Nº Inventário: ICP 209

Pintura italianizante e com laivos de inspiração em Leonardo da Vinci, esta representação da Virgem com o Menino remete para as Virgens da Ternura, da pintura bizantina, nas quais a Mãe e seu Filho trocam gestos de carinho. Neste caso, o Menino Jesus, completamente despido, amparado por sua Mãe, acaricia com a mão esquerda o queixo da Virgem, ao mesmo tempo que volta a cabeça e o olhar em direção ao observador. A Virgem Maria, por sua vez, ostentando túnica azul e manto vermelho, ampara o seu Filho e olha também para o observador. As proporções anatómicas apresentam-se corretas e o trabalho técnico do claro-escuro, que configura os volumes, está perfeitamente conseguido e segue o princípio do sfumato desenvolvido por Leonardo da Vinci. Tanto a Virgem Maria como o Menino Jesus olham para o observador parecendo convidá-lo a penetrar no mistério de acolher o Filho, como sugere a Senhora, ou de aceitar a Virgem como sua Mãe, como indica Jesus.

Foi oferecida pelo Padre João Tinoco Vieira, tesoureiro da Irmandade dos Clérigos em 1733 e presidente da mesma em 1735.

O quadro intitulado “Virgem com o Menino” poder ser  contemplada no altar de Nossa Senhora das Dores, na Igreja.

Casimiro, Luís - In Clerigus.

Irmandade dos Clérigos, 2019

 

* Luís Casimiro é doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto e dedica-se à investigação em Iconografia, e é o autor do texto sobre a coleção de pintura no catálogo Clerigus.

 

Clérigos como caixa acústica

Este monumento barroco é, em si mesmo, um poderoso instrumento musical.

O espaço arquitetónico barroco contemplou na sua génese a experiência musical, na medida em que dadas as suas características, permite conter as melodias, e por outro, aumentar a sua projeção.

Tendo em conta o papel preponderante da música nas cerimónias religiosas, houve uma preocupação evidente na conceção de edifícios religiosos. Criaram-se edifícios como verdadeiros instrumentos musicais, tendo sido o trabalho teórico-prático dos arquitetos barrocos, lidado com preocupações como o comportamento acústico das edificações e a propagação e inteligibilidade da voz. O espaço torna-se inevitavelmente no elo direto de ligação entre duas artes: música e arquitetura. Os edifícios que aparentavam ser mais simples, convertem-se em verdadeiros instrumentos musicais. Um magnífico exemplo disto é a Igreja dos Clérigos.

A verdadeira alma deste instrumento reside na igreja, não só pelos dois órgãos de tubos de confeção ibérica, simetricamente posicionados, mas também pela sua geometria. Com a sua nave de planta oval, coroada com uma abóbada praticamente semielipsoidal, os Clérigos apresentam-se como uma extraordinária caixa acústica, constituindo o primeiro ensaio deste modelo de configuração geométrica em território nacional.

De acordo com alguns investigadores, uma planta com as características da Igreja dos Clérigos influencia o comportamento das ondas sonoras, em especial, à sua difusão.

Não se sabe se o arquiteto Nicolau Nasoni teria este conhecimento, mas não existem dúvidas quanto ao modo triunfal como a arquitetura foi capaz de se elevar a um formidável instrumento musical.

Xavier, João Pedro - Clérigos como caixa acústica. In Clerigus.

Irmandade dos Clérigos, 2019